12 de mar de 2014

Escolhendo as batalhas

Sabe, nunca tive paciência com gente cheia de restrições com alimentação.
Toda vez que via algum adulto, com o perdão da palavra, cheio de frescura pra comer me subia aquela raivinha. De modos que quando me tornei mãe podia saber poucas coisas na vida, mas uma delas é que eu não cederia a caprichos de filho com relação à comida. É claro que não demorou muito tempo pra que eu começasse a pagar a língua. Já comentei várias vezes o quanto tenho dificuldade na alimentação da Fernanda, o que me fez aprender algumas coisas na marra...

#Exemplo não é tudo

Aqui em casa não temos por hábito consumir refrigerante, junk food e porcarias em geral. Vez ou outra, acontece. Mas não é hábito. O hábito é termos comida saudável. Há quatro anos Fernanda nos vê nos alimentando desta forma mas isso não foi suficiente para fazer com que ela gostasse das coisas que comemos, ou pelo menos, não da forma que comemos. Então mesmo sabendo que exemplo é importante, aliás, é fundamental para formar hábitos saudáveis nos nossos filhos, exemplo nem sempre resolve a parada. 

#Existem fases - e elas passam

Já consegui me iludir algumas vezes achando que "agora vai, Nanda tá comendo super bem, finalmente consegui". Assim como já me desesperei algumas vezes quando ela simplesmente se negava a comer. Tanto a fase do ~tá comendo direitinho~ quanto a fase do ~socorro, essa menina não come~ passaram. Saber disso ajuda a manter a calma ou não se empolgar demais. Com expectativas reais o coração de mãe sofre menos.

#Existem crianças que comem e crianças que não gostam de comer

Só descobri isso quando Daniel nasceu, já que a diferença entre um e outro é gritante. Desde a fase das papinhas sempre foi um sofrimento alimentar a mais velha. Desde a fase das papinhas me impressiono com o apetite do mais novo. Ele aceita tudo, prova tudo, tem curiosidade por todo tipo de alimento. É assim que ele é. Existem crianças que comem, e existem crianças que não gostam de comer - simples assim. E isso me leva ao próximo ponto.

#Respeitar os gostos não é ceder ao capricho

Existem alguns alimentos que Fernanda adora. Ela gosta muito de uva, por exemplo. De ameixa, castanhas e amêndoas. Queijo e tapioca. Ela adora chás gelados. E é incrível como ela é incapaz de comer um prato de arroz e feijão ao mesmo tempo em que devora um prato de sopa cheinho de legumes. Eu sempre quis que ela comesse de tudo, gostasse de tudo que colocamos à mesa, mas a verdade é que ela não gosta. Eu e o meu medo de ceder e fazer dela aquela adulta cheia de frescura que eu tinha raivinha me fizeram bater cabeça até hoje querendo obrigá-la a comer o que se põe na mesa. Sem segunda opção, sem cardápio alternativo. Mas a verdade é que minha filha é única e precisa ser respeitada com tal. Não vai ser a minha vontade que vai mudar o seu paladar. Comecei a me sentir mal por tentar formatá-la ao meu gosto, à minha vontade. Comecei a fazer sopinhas e mais sopinhas, cheias de nutrientes. Num dia de feijão, no outro de carne, no outro canja. Estão lá, todos os grupos: proteínas, carbos, vitaminas, fibras, lipídios, tudo o que ela precisa. E melhor ainda: do jeito que ela gosta. Não preciso bater tudo pra disfarçar o que tem na sopa, tá tudo ali, em pedaços mesmo, e ela adora. Ela ainda diz "mamãe, eu adoro legumes" ou "mamãe, coloca sopinha na minha lancheira pra eu levar pra escola amanhã?". Como eu pude achar que estava fracassando? Ouvir de uma menina de quatro anos que ela adora legumes não pode ser um fracasso! 

#Escolha suas batalhas

O que é mais importante? Talvez a quantidade que oferecemos de comida seja maior do que a fome. Vale a pena comprar a briga do "só sai da mesa quando raspar o prato"? Às vezes é uma viagem em família, com a vovó e seus salgadinhos irresistíveis cheios de corante e sódio. Vale a pena estressar por uma semana se você sabe que quando voltar pra casa tudo voltará ao normal? Sabe, sentar à mesa e desfrutar de uma refeição é muito mais do que sentar à mesa e desfrutar de uma refeição. É encontro. É um momento diário onde podemos criar memórias afetivas que vão marcar nossos filhos por toda a vida. 

Algumas batalhas precisam ser compradas, lutadas até o sangue. Outras não valem a pena. Às vezes olhamos para os nossos filhos mas não os enxergamos. Vemos o que queremos que eles sejam, e isso é natural. Mas talvez se tentarmos enxergá-los, podemos nos surpreender e ver que eles estão saindo melhor que a encomenda. 

jantar de ontem

37 comentários:

  1. oi...também passo um sufoco com meu filho de 2 anos e 3 meses...sempre tivemos dificuldade com a alimentação dele... só comia papinha não aceitava comida que a gente comia... isso foi ate completar 2 anos... agora já faz 3 meses que ele não aceita a papinha... não come comida de sal.. esta comendo só frutas, castanhas e leite. Tem dias que entro em panico...

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    1. Te entendo, Cris! Respira fundo e paciência!

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  2. Criança quando tem fome e disponibilidade de comida, come.
    Transformar o horário das refeições numa batalha é improdutivo e estressante para todos os envolvidos.

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  3. Meu Deus, era tudo o que eu precisava ler neste momento! Sábias palavras que me fizeram parar e refletir sobre como venho lidando com a alimentação da minha filha, de 2 anos.
    Ela come a mesma comida que nós comemos, mas também ama sopa.

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  4. Ju, coloca no blog as sopinhas da Fernanda, por favor!
    As mamis agradecem. Já não sei mais o que fazer para variar o cárdapio.
    Bjs

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  5. Tenho duas filhas e na minha opnião vai muito da idade, com o nosso exemplo vai chegar uma hora que ela vai querer provar... Eu quando pequena nessa idade comia só arroz com ovo e minha mãe comia de tudo, hoje eu como de tudo, não me tornei uma adulta fresca com a comida!!! rsrs. Bjaum.

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    1. Comigo tb foi assim Edna! Nossa, qnd eu paro pra pensar como era fresca pra comer quando criança. Uma época só comia feijão sem caldo. Em outra época sem caroço. Macarrão, só na manteiga, sem nenhum tipo de molho. Zero de legumes, verduras e frutas. Uma vez fui almoçar na casa de uma amiga, eu já tinha uns 10-11 anos, e foi servida uma torta de bacalhau. Eu comi arroz com azeitona! Imagina a cena, eu dizendo: não tia, imagina, não precisa fazer ovo pra mim. Eu como isso aqui mesmo. rsrsrsrs. À medida em que fui ficando adulta, comecei a provar mais coisas, e depois de casada então, qnd comecei a cozinhar, passei a comer de quase tudo! Meu paladar mudou mto, e hj eu considero até melhor do que o dos meus pais. Histórias como as nossas devem aliviar a carga de stress e preocupação das mamães, né? rsrsrs

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  6. Até um ano Ben comia de tudo!!! Era uma maravilha! Frutas, verduras, peixe, frango! Tudo. Menos mingau... Depois e desde então, às vezes tenho que insistir para que ele coma. Agora, verdura, e às vezes nem batata mais ele come... Luta diária, mesmo. Já a Raquel, é uma Magali. Se não está com apetite, tá dodói. Aprendemos muito com nossos filhos. Amei suas dicas, como sempre, muito eficazes!

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  7. Ju, relaxa....Juro que eu fui das crianças mais inacreditáveis quando o assunto é comer. Acho que me alimentei por anos a fio de bife, ovo cozido e arroz com catchup. Sim, fui chata até lá pelos 15 anos, quando você começaa se alimentar na casa das amigas e fica com vergonha interna por não comer bem e não ter coragem de experimentar pratos novos. O divisor de águas, contudo, é geralmente o restaurante universitário...Encarar diariamente que por menos de dois reais você pode se alimentar bem na universidade ou pagar 30 no restaurante mais perto é um motivador e tanto para a mudança de hábitos. Relaxa, a Fernanda vai sobreviver...rs..Boa sorte enquanto isso!!!

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  8. Arrasou no texto. Quando eu for mãe, vou consultar esse blog todo santo dia. <3

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    1. quando tu for mãe, a gente vai passar o dia trocando figurinha no gtalk kkkkk

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  9. É ...quando somos jovens achamos que sabemos tanto, mas as experiencias da vida nos ensinam muito mais do que podíamos imaginar, um abraço!

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  10. Oi Juliana, muito boa a matéria desta postagem, às vezes presenciamos crianças que dominam completamente os pais, em matéria de alimentação. É muito bom ter consciência do problema, para enfrentá-lo com sabedoria. Parabéns, que seja muito abençoada, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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  11. Vc é uma sortuda Juliana! ... tb sou igualzinha, ainda não tenho filhos, mas meu coração só falta sair pela boca com o filho do meu marido!.. Aos 3 anos, ele resolveu que não gostava mais de carne (de nenhum tipo), e até hj, aos 6, só come salsicha, as vezes um mini empanado ou ovo frito pra variar... pq o arroz branco e o purê só fazem figuração no prato!!! Pra mim, é absurdo uma criança de 3 anos determinar o que vai comer e ponto final... mas como não é meu filho, eu só posso olhar... e lamentar!

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    1. Nossa, difícil mesmo, se fosse eu, ia me intrometer geral kkkkk

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  12. Excelente post! Traduz exatamente o que penso.Tenho dois meninos (11 e quase 8) e sei bem por tudo isso que vc passa... e te digo mais, a fase do "gosto disso, não gosto daquilo" nunca termina!
    Abraços

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  13. Ju, eu me vi no seu relato. Pedro tem alergia a leite e muuuuitas restrições. E para melhorar, não quer comida. Só quer papinha. E na escola, lanche é somente fruta, suco e torrada. E normalmente, voltam também. Seu relato me deu um ânimo. Porque eu sei quais lutas em travo com o pequeno. Então, não faço mesmo o momento da comida uma briga. Faço deste momento o nosso momento. E olha, tô na fila também: coloca as receitinhas das sopinhas da Fernanda, por favor! ;)

    Beijos, Elaine

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    1. Guenta aí que vou postar, amiga!

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  14. Adorei, Ju! Repito Milena, tb consultarei. hahahaha Aqui em casa foi assim também, eu como de um tudo desde pequena, não tinha drama; exceto com alguns itens; tipo cebola crua. Hoje em dia, como até o que não gostava qd criança. Minha irmã até hoje é um processo, e ela já beira 20 anos. haha Minha mãe as vezes fica louca, as vezes deixa pra lá; estressa menos. É complicado isso, né? Somos todos tão diferentes. Mas não nego, torço pra minha mana comer melhor, por questão de saúde; não tem como não se preocupar;

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    1. Justamente. Não sei como é que cresce, esses meninos vivem de luz, só pode

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  15. É como eu disse aqui em casa esses dias, criança só aprende pelo exemplo: exemplo dos comerciais, dos coleguinhas da escola, do "todo mundo tem, faz e come". A diferença é que nunca cedi a isso e o pequeno entende pq se ele ama inhame, não é obrigado a comer macaxeira, se ama arroz com brócolis não precisa comer couve, tá de barriga cheia pode levantar da mesa, mas se pediu suco tem que tomar todo. Não digo nem que jogo de cintura, compreensão, conversa e amor fazem parte, mas são obrigatórios na relação familiar. E tem alegria maior do que todo mundo feliz à mesa???
    Bianca

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  16. Ju, por favor, posta algumas sopas que você faz para ela (e que possa congelar, se possível).
    Beijos, ótimo post!!!
    Joana

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  17. Oi, sempre dou uma passadinha pelo seu blog, mas nunca comentei...
    Esse texto serve pra mim porque eu fui uma criança que comia de tudo, sempre aceitei provar coisas diferentes, nunca recusei frutas, legumes e verduras, comia peixe, frutos do mar, carne vermelha e frango, tudo numa boa...Mas, com 14 anos (hoje tenho 26), passei por um período muito grande de estresse e desenvolvi um distúrbio alimentar.Hoje, não tenho uma relação saudável com a comida e luto todos os dias para melhorar.
    Não tenho filhos, mas eu mesma passo por essa angústia que as mães passam, porque me preocupo comigo mesma: por mais que eu saiba que preciso melhorar, muitas vezes o distúrbio fala mais alto.Me identifiquei com essa questão das fases, tem épocas em que eu consigo comer muito bem, aí fico empolgada, mas, logo pioro, então me sinto fracassada...Minha mãe, que, por sinal, ama cozinhar, obviamente, sofre junto comigo...
    Estou mantendo meu peso há mais ou menos um ano, e me esforçando muito.Não cozinho, mas costumo visitar blogs de culinária porque eles me ajudam há ver a comida como uma alida, e não inimiga.Sigo na luta.Hoje, comi pão com queijo mussarela, coisa que não fazia há uns 6 meses...Agora, já anotei a receitinha que peguei aqui do bolo de fubá fofíssimo e estou criando coragem para pedir pra minha mãe fazer.
    Continue com o blog: além daqueles que estão procurando uma receita, você pode ajudar também de maneiras que nem imagina...Como eu, aprendendo há recuperar o prazer de comer... ;)

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    1. Nossa, tenho nem palavras :~ Mas continue lutando, e no que puder ajudar, conte comigo =) Obrigada!

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  18. Ju, vou encher o saco, eu de novo: coloca no blog as sopinhas da Fernanda, por favor!

    Bjs

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